Quando a vi pela primeira vez, muito antes de Simon Blackwell e Bill Stone, soube que nela residia nossa redenção, e embora não deixasse de ser intrigante que alguém tão jovem e frágil fosse a chave para nos abrir as portas d eliberdade, eu já vivera o suficiente e conhecia muito bem as ironias da vida. Ela era como todos os humanos, certa de que vampiros não passavam de produtos da literatura ou frutos de superstição, nada além de uma excelente fonte de renda para o cinema, abastecendo as pessoas com uma saudável dose de assombro e medo para desviar sua atenção de um cotidiano pouco emocionante. Não que eu tivesse algo a reclamar. Ao contrário, isso era muito adequado para ocultar nossa presença no mundo. No entanto, era chegado o empo de assumirmos nosso direito de existirmos em paz, de não mais nos escondermos, vítimas do medo irracional, da perseguição implacável e do extermínio. Nossa história, tão antiga quanto o próprio tempo, estava para ser aberta e depois contada, varrendo para sempre os esteriótipos de Drácula e Caim, as maldições bíblicas, o fanatismo e as trevas. Era hora de acaabr com a ignorância que nos imputava o medo da prata e da cruz, que muitas vezes usávamos como enfeito; com as crenças sobre o efeito do alho e da água benta, que máximo nos deixavam malcheirosos e molhados. Nunca dormimos em caixões, nunca carregamos conoscos bocados de nossa terra natal e, se não saíamos ao sol, era apenas por não termos em nosso organismo melanina suficiente para nos proteger da radiação solar. Milhares de anos foram depositados nas mãos de uma jovem humana que se tornaria a rainha d etodos nós, transformando nossa noite escura em um crupúsculo vermelho e eterno, onde finalmente poderíamos viver.
Hanzi Mare - Rei dos Vampiros.
CAPÍTULO 1 -SÓ MAIS UM DIA
Havia algo no ar naquela manhã. Uma atmosfera de festa, de véspera de férias, de inicio de verão. Tudo estava mais agitado que o normal, as pessoas pareciam empolgadas, elétricas. Ou talvez fosse apenas eu, que ainda não estava totalmente acordada. Como sempre. Na verdade, ainda era meio de outono e não havia nada de empolgante naquela manhã gelada, nada de especial no ar. Era só mais um dia comum, como todos os anteriores. Sem graça. Sem cor.
Ultimamente todos os meus dias estavam assim: sem graça e sem cor, uma mistura de Another Day do Paul McCartney com Every Day is Exactly the Same do Nine Inch Nails, se é que essa mistura era possível.
Olhei desorientada para o prédio da escola e dei-me um tapa na cabeça, com a esperança de pegar no tranco e conseguir acordar direito. Não podia mais continuar dormindo nas aulas como vinha acontecendo. Isso ia acabar me colocando em sérios problemas. No colégio onde eu estudava, era conduta normal chamar os pais por qualquer coisa e eu já começa a estranhar o fato de ninguém ter ligado para minha casa. Ainda.
- Oi, Meg! Você vai comigo hoje, né? - perguntou Sarah surgindo do nada com expressão ansiosa, segurando meu braço com mais força do que eu gostaria.
Olhei para ela confusa, me perguntando de onde ela havia surgido. Ir aonde? Fazer o quê? - Ah, não! Você esqueceu? - ela me examinou atentamente - Não vá me dizer que já marcou outra coisa para hoje! - ela parecia desapontada comigo e senti uma ponta de raiva em seu olhar. Levantei as sobrancelhas em resposta, sem saber o que dizer. Nós havíamos marcado alguma coisa para hoje? Minha cabeça continuava dormindo o sono dos justos e eu não sabia o que dizer.
- Megan Grey, quer fazer o favor de me responder?
- Bom... Aonde é que a gente ia mesmo? - perguntei com voz sumida.
Sarah suspirou, irritada.
- Comprar os ingressos do show! Como você pode ser tão desligada?
- Ah! Claro... vamos, sim! - respondi. Minha mente acordando só um pouquinho... o suficiente para me lembrar do que ela estava falando, retornando ao sono profundo logo em seguida.
- O que está havendo com você? De uns tempos pra cá está sempre assim, parece um zumbi! - minha amiga reclamou, chateada.
- Não tenho dormido bem...
- Ainda está com isso? Continua acordando de madrugada?
- No mesmo horário, religiosamente. Já estou até me acostumando... - Falou com sua mãe? Você precisa ir ao médico, isso não é normal! - Sarah fez cara de quem ia continuar seu discurso sobre como a privação de sono faz mal a saúde, mas algo distraiu sua atenção: - Nossa, olha lá a Britt! Gente, que visual é aquele? - perguntou, sem esperar que eu realmente respondesse àquilo.
Acompanhei seu olhar e observei Britney por alguns segundos, sem qualquer interesse. E daí se ela só vestia preto e usava aquela maquiagem estranha? E daí se ela achava que era legal ser gótica e andar vestida feito um morcego?
- Deixa ela. - respondi com um bocejo.
-Eu deixo, mas vai me dizer que isso não é esquisito?
Dei de ombros, com sono demais para argumentar.
- Oi gente! - exclamou Alice, com seu costumeiro sorriso e bochechas vermelhas. Tive a impressão que ela também havia surgido do nada.
- E aí, qual é a fofoca do dia? - quis saber. - Eu estava dizendo pra Megan que acho a Britt maluca demais. Alice esticou os olhos para Britney, avaliando a menina.
- Bom, o que você queira? Ela é gótica -comentou como se isso explicasse tudo - ou dark, ou algo assim.
- Nós vamos comprar os ingressos do show! Quer ir com a gente?
- Sei lá. Nem sei se vou ao show. Não gosto tanto assim do Red Kings ofDark Paradise, eles me dão medo, apesar de serem lindos!
- Os caras são demais! - Sarah estava extasiada outra vez - E aquele vocalista? Gente, o que é que é aquilo! Ele é ma-ra-vi-lho-so!
Alice riu, concordando, e aí pareceu se lembrar que eu também estava ali.
- Não sabia que você curtia rock - disse me olhando com simpatia.
Abri a boca para responder, mas graças a Deus Sarah me cortou:
- Curte nada! A Megan vai só pra me fazer companhia. - Ainda não decidi se vou mesmo... - respondi com uma ponta de desafio na voz - talvez eu vá.
- Você precisa dar um jeito nessa sua insônia. comentou com desagrado. Seu humor está um lixo, sabia?
- Nossa... Você anda com insônia? perguntou Alice.
Eu quis matar a Sarah naquele momento.
- Um pouco respondi, olhando para meus pés.
- Minha madrasta também comentou Alice Acorda no meio da madrugada e não consegue mais dormir. Nem com remédio.
- Nossa, igualzinha à Mondon! Sarah cometou, empolgada.
- Faz tempo? - perguntou.
- Algumas semanas - menti, tentando não fazer aquilo parecer importante a ponto de virar o assunto do dia.
- Então é por isso que você está com essas olheiras? Felizmente meu anjo da guarda interveio e eu fui salva daquele momento embaraçoso pela chegada da paixão de minhas amigas: Paul Foster.
Paul estava um ano na nossa frente e era amigo do irmão de Sarah, mas sempre parava para conversar um pouco conosco. Eu sabia que Sarah tinha uma paixonite por ele, mas Sarah tinha uma paixonite por todos os garotos bonitos da escola, então isso não significava muita coisa. Alice, entretanto, gostava mesmo do menino. - E aí, pessoal? Paul sorriu para nós com simpatia.
- Oi, Paul. Você vai ao show do Red? - perguntou Sarah, toda esfuziante.
- Claro! Já comprei o ingresso! - ele estava tão animado quanto Sarah e imediatamente começou a falar sobre a banda como se aquilo fosse o grande acontecimento do universo. Alice olhou para os dois com o canto dos olhos.
Eu sorri para ela e decidi que aquele era um bom momento para baixar um pouco o fogo da Sarah.
- Alice também vai - informei com voz neutra.
- É mesmo, Lilly? - ele era o único que a chamava de Lilly - Maravilha. Podemos ir todos juntos! E você, Megan?
- Ainda não sei... - respondi feliz por ver a cara de decepção da Sarah.
- Dá um jeito de ir. Vai ser legal e depois a gente pode ir comer alguma coisa antes de voltar pra casa.
- Estou pensando - respondi com um sorriso. - Opa... o Chuck chegou! A gente se vê, meninas. disse Paul apressando o passo para encontrar o amigo.
Alice suspirou ao vê-lo partir.
- Como este cara é lindo! - ela suspirou novamente Olha aquele cabelo! Gente, que menino perfeito!
- Ele é bonito, sim - concordei. - E boa gente também. Vocês vão fazer um lindo par.
Sarah me fuzilou com os olhos e eu senti uma agradável sensação de vingança. Quem sabe ela pensasse duas vezes antes de expor minha vida para os outros.
- Ele nem sabe que eu existo...- a voz de Alice parecia desalentada.
- Como não, Lili? - eu estava brincando com ela, mas o efeito foi outro.
- Você acha mesmo que ele sabe que eu existo? Que ele me vê assim?
- Quem sabe? - respondi, evitando o olhar de Sarah.
- Vamos entrar, está na hora - Sarah virou-se e nós a seguimos.
O sinal estridente do inicio das aulas soava e eu sabia que teria longas horas pela frente, lutando para manter meus olhos abertos. Por mais irritada que estivesse com Sarah, eu sabia que ela tinha razão, eu devia procurar um médico para ver o que estava acontecendo comigo. Não er anormal ter insônia daquele jeito, ainda mais pra mim, que sempre dormi mais que a cama. Mas médico significava explicar o problema para minha mãe e passar por um interrogatório longo e repetitivo que com certeza iria incluir as palavras sexo e drogas várias vezes. Sinceramente? Preferia ficar sem dormir.
Como já estava se tornando rotina, eu cochilei nas duas primeiras aulas e acordei no meio da terceira com a professora de História ao meu lado e a classe toda gargalhando. - Sabia que a noite foi feita para dormir, senhorita Grey? - perguntou a Sra. Winslet com ar sarcástico.
- Desculpe - balbuciei com o rosto vermelho e a cabeça abaixada.
- Bem, agora que já está desperta, talvez possa responder à minha pergunta...
- Desculpe... a senhora poderia repetir?
- Nós estamos falando sobre a Revolução Francesa e suas influências no movimento de Independência dos Estados Unidos.
Olhei para ela com uma súplica no olhar e ela pareceu entender.
- Vá passar uma água no rosto e volte logo. - ela sussurrou para mim com um olhar consternado e então se dirigiu a Deborah Petterson e pediu que respondesse à questão.
Eu saí da sala sentindo todos os olhos em mim e rezei para que Sarah mantivesse a boca fechada. Não queria que todo mundo soubesse que eu não estava dormindo direito.
Enquanto caminhava pelos corredores vazios rumo ao banheiro, tentei descobrir pela milionésima vez o que poderia estar me impedindo de dormir, mas não cheguei à conclusão nenhuma. Aquilo havia começado do nada. Certa noite, eu acordei às duas da manhã, levantei, abri a janela e me sentei na cama, olhando para a rua vazia, como se esperasse algo ou alguém. Fiz tudo isso em estado de quase sonambulismo. A diferença é que eu tinha consciência do que estava fazendo, mas não sabia o porquê. Desde então, todas as noites, o mesmo ritual se repetia, até começarem a surgir os primeiros raios de sol. Aí, eu fechava a janela, voltava para a cama e, obviamente, acordava poucas horas depois, com o despertador, cansada e abatida.
Tentei deixar a janela aberta antes de me deitar, mas não adiantou. Continuei acordando e sentando na cama, encarando a rua vazia. Durante as primeiras semanas, eu pesquisei na internet sobre insônia e suas causas, mas nada se aplicava ao meu caso. Eu estava me tornando um caso para ser discutido em cngressos de medicina, pesquisa do em universidades. Se aquilo continuasse, eu acabaria famosa no mundo inteiro como "a garota que não dorme". Talvez fosse até parar no Discovery Channel, ou no Nat Geo.
Joguei água fria no rosto e fiquei de frente para o espelho, analisando minhas olheiras, o ar cansado, aparência abatida. Não que eu fosse um exemplo de vigor e saúde antes de tudo começar, mas com certeza tinha uma aparência mais saudável, mais viva. Mostrei a língua para mim mesma e voltei para a aula, me condicionando a permanecer acordada. "Não vou dormir, não vou dormir", repetia mentalmente pelos corredores silenciosos, caminhando sem pressa e cabisbaixa, tentando me concentrar em meu propósito.
Não sei se foi a falta de sono ou algum tipo de cansaço visual, mas de repente tive a nítida impressão de ver um homem alto, de cabelos claros presos em uma trança longa, vestindo um sobretudo preto, parado me olhando fixamente. O susto foi enorme. Meu coração acelerou, minhas pernas bambearam e eu achei que fosse desmaiar, mas de repente, a figura sumiu. "Que beleza, Megan", pensei comigo mesma. "Agora você deu pra ver coisas também".
As aulas foram passando normalmente e eu consegui não dormir mais, mas minha atenção não estava na sala de aula, e sim na figura misteriosa que eu imaginara ter visto. Tentei fixar meu pensamento no Red e no que eu sabia sobre a banda. Comecei a fazer a lista mentalmente: - Seis integrantes. - Som é uma mistura de metal pesado com hard e uns toque de melódico. - Ótimos solos de guitarra e bateria. - Segundo Sarah, todos lindos. (eu não me lembrava de nenhum deles) - Banda nova, tinha aparecido fazia pouco tempo e já era a segunda em vendagem de cd. Fãs alucinados e fanáticos. - O logotipo da banda era uma bandeira vermelha, com um rosto de pantera em primeiro plano e quatro panteras ao fundo. - A primeira pantera estava de boca aberta e os longos caninos afiados pareciam prontos para morder o primeiro que ousasse desafiá-los. Podia não ser muito bonito, mas a arte era impressionantemente bem feita. E eu podia dizer isso, já que panteras eram minha paixão. Tinha um pôster enorme de uma pantera negra, de olhos azuis cristalinos, no meu quarto, que me fazia companhia nas horas de insônia.
O que mais? - vasculhei minha mente tentando lembrar o rosto dos integrantes, mas foi impossível. De qualquer forma, o exercício serviu à sua finalidade e eu desviara minha atenção da figura no corredor.
Notei, durante a aula de litaratura, que Sarah me observava com atenção e sorri imaginando o que ela diria se soubesse o que eu estava pensando. Na hora do almoço, enquanto olhava para a maçã em minhas mãos, decidindo se valia a pena mordê-la, o assunto variou entre a beleza de Paul, a esquisitice de Britt e sua turma, meu vexame na aula de História e o show do Red Kings. Não apenas Sarah, mas muitos alunos estavam mais do que empolgados com o show. Alice sorriu para mim, parecendo tão cheia daquele falatório quanto eu e nós começamos a conversar, ignorando a histeria geral.
- Você vai com a gente comprar os ingressos? perguntei com um suspiro cansado.
-Acho que sim. Não quero perder a oportunidade de ir ao show, se o Paul vai estar lá.
- Você gosta mesmo dele, né?
- É, gosto sim - ela tinha um olhar sonhador - Mas não tenho grandes chances. - Por que ele é mais velho?
- Porque não sou como as outras meninas, você sabe, não fico pulando no pescoço dele e tudo mais. Talvez se eu fosse mais atirada, ou mais bonita...
- Não acho que gostar tem a ver com beleza. Se fosse assim o que seria das feias? E você é linda, Alice. Tem o sorriso mais encantador que eu já vi.
- Tá...mas um pouco mais de peito não me faria mal - observou - E você? Gosta de alguém? Neguei com a cabeça. - Mas já gostou?
- Bom, quando eu tinha sete anos, me apaixonei por um menino da minha sala. Isso conta? - Acho que não - ela disse sorrindo. - Esse negócio de gostar é esquisito, acontece sem que a gente queira. Quando você vê, já está gostando. Mas também não é uma lei ou algo assim. Não tem que gostar de alguém e vai ver ainda não chegou o garoto que vai fazer você se apaixonar.
Eu sorri, mas procurei não estender o assunto. Não quis dizer que me achava à prova de amor, que não me via tendo momentos românticos com alguém. Esse tipo de coisa não parecia certa para mim e eu não sabia explicar o motivo.
- Pelo menos você não é como certas pessoas que saem por aí gostando de todo mundo.
Eu sabia de quem Alice estava falando e ri do comentário.
- Se algum dia eu me apaixonar - comentei - vai ser pra sempre. Não me vejo trocando de namorado o tempo todo.
- Nossa, que romântica! - Sou nada. Por isso acho que, se um dia acontecer, vai ser pra valer, porque não faço o gênero Romeu e Julieta. Aliás, acho esta história um saco. - Então não acredita em almas gêmeas, amor à primeira vista, coisa predestinada?
Fiz uma careta pra ela e ri.
- Eu acredito! disse Sarah, intrometendo-se na conversa.
Imaginei há quanto tempo ela estava ouvindo. Por alguma razão eu estava implicando com Sarah aquela manhã e isso não era justo. Ela era minha amiga mais antiga e eu estava rabugenta demais. Respirei fundo, tentando melhorar meu humor e levantei a cabeça em direção às janelas do refeitório. Foi então eu o vi. E, desta vez, não era nenhuma ilusão de ótica. Ele era alto e forte, tinha olhos de cor indefinida, cabelos entre o loiro e o ruivo, volumosos e brilhantes, presos em uma trança que caía até a cintura. Um sorriso se desenhou em sua boca e ele levou o indicador até os lábios, pedindo silêncio.
Meu coração disparou e minhas mãos começaram a suar frio. A adrenalina corria solta no meu sangue, meu corpo tremia incontrolavelmente e eu senti meus olhos congelarem, arregalados. Eu não respirava. Todos os sintomas de pavor estavam presentes, mas eu não sentia medo. Era como se meu corpo reagisse de um jeito e minha mente de outro. Quem era aquele homem? Uma alucinação, um fantasma, um demônio? Por alguma estranha razão pensei que ele estava aparecendo para a pessoa errada, quem deveria vê-lo era Britt, não eu. - Megan! O que foi? Sarah agarrou meu pulso e o largou imediatamente como se tivesse levado um choque elétrico.
Eu estava congelada, catatônica. Demorei uma eternidade para consegui descer e subir as pálpebras e respirar novamente.
- Meu Deus, Megan, o que aconteceu? - Sarah estava assustada.
Eu tentei balbuciar alguma coisa, mas a voz não saía.
- Calma que isso é falta de sono Alice me salvou com aquelas palavras. Nunca me senti tão agradecida a alguém como naquele momento.
- Eu estou bem murmurei, meio sem jeito.Não ousava erguer os olhos para nossos colegas de mesa, mas logo percebi que nenhum deles notara meu momento, entretidos com as fofocas habituais.
- Talvez seja melhor você ir para casa Sarah não desgrudava os olhos de mim Quer que peça para chamar sua mãe?
- Não! minha voz saiu mais alta do que eu pretendia e vários olhares se voltaram em minha direção Não precisa. Eu estou bem, juro!
Sarah suspirou ruidosamente.
- Tá. Então me promete que hoje você vai pra cama cedo. - Prometo. Assim que voltarmos da loja, eu vou dormir. Mesmo!
- É melhor você ir direto para casa - observou Alice - Eu compro seu ingresso. - Eu estou bem, não foi nada.
- Não foi anda? Você está branca feito um fantasma! - Sarah ainda me olhava com preocupação e aquilo me incomodava mais que tudo.
Não foi fácil, mas consegui convencer as duas e a mim mesma de que aquilo não passava de falta de sono. Passei o restante das aulas concentrada nas matérias, não me permitindo pensar em qualqueroutra coisa que não fosse o assunto em questão.
Quando saímos da escola demos de cara com Paul e Greg, o irmão mais velho de Sarah, que esperavam no estacionamento para nos dar carona.
- Nós vamos comprar os ingressos do show. avisou Sarah.
Então, virando-se para mim ela perguntou em voz mais baixa:
- Tem certeza de quer vir com a gente?
- Absoluta respondi com firmeza.
Quinze minutos depois me arrependi profundamente de não ter ido embora. A fila para os ingressos se estendia por mais de três quarteirões e o dia cinza e pesado, com chuva fina e vento cortante, pedia muito mais um sofá e um filme, do que qualquer outra coisa. Greg nos despejou ali, incumbidas de comprar ingresso para ele também e saiu em disparada.
Tédio, tédio e tédio. E frio, muito frio. Meia hora se passou e parecia que não tínhamos saído do lugar. Mesmo mesmo Sarah, sempre uma matraca, tinha ficado sem assunto. Alice estava tão aborrecida quanto eu, mas também apreensiva, na certa, temendo que a cena da manhã se repetisse.
Quando esatva quase pegando no sono, em pé, na fila, fui arrancada de meu estado de zumbi por uma gritaria assustadora e desconexa. Olhei para Alice, confusa. O que estava acontecendo? - São eles! - Sarah pulava, histérica. - Olha! OLHA!!!
Virei lentamente a cabeça na direção que ela apontava e vi uma fila de carros pretos, parados do outro lado da rua, com vários seguranças ao redor. Eram os Red e nem é preciso dizer que que a bagunça começou. Gritos e empurrões, gente tirando fotos e gravando a cena pelo celular, choro, histeria. Sarah correu em direção aos carros e eu e Alice nos olhamos, perguntando uma à outra o que fazer.
- Vamos aproveitar que todo mundo saiu da fila e comprar os ingressos!
Corremos em direção à loja, sem perceber que os carros estavam se movimentando novamente, e junto com eles a multidão alucinada. Entramos o mais rápido que conseguimos e compramos os tickets. Aproveitei e comprei um CD. O tumulto começou a ficar mais intenso e Alice me puxou para perto dela. Os seguranças haviam feito um corredor para os músicos entrarem, na certa para autografarem os CDs e DVDs da banda. Nós duas pensamos a mesma coisa: disparamos para o lado contrário, o mais longe possível da entrada da loja e acabamos de costas para os músicos.
O gerente da loja, prevendo que aquela confusão não acabaria bem, mandou abrir uma porta lateral e nós fugimos por ela antes mesmo da banda entrar.
- E a Sarah? - perguntei atordoada quando nos afastamos o suficiente para respirar - Ainda está lá dentro! Eu me sentia péssima e toda aquela confusão só piorava meu estado. O que estava havendo comigo, afinal?
- Vá pra casa, Megan, eu espero a Sarah. Você consegue ir sozinha?
Respondi que sim e fui embora, sem pensar duas vezes. Sinceramente, não lembro como cheguei em casa, mas acho que havia um ônibus envolvido no processo. A chuva havia engrossado, eu estava molhada e dura de frio, a cabeça vazia, o corpo exausto. Caí na cama e dormi na hora, ou talvez já estivesse dormindo no caminho, não sei dizer. Só sei que, pontual como um carrilhão inglês, acordei as duas da manhã, zonza, sem saber onde estava e como havia chegado ali. Demorei longos minutos para reconhecer a luz do relógio e outros mais para me localizar. Minhas roupas estavam secas e meu cabelo parecia um ninho mal construído por um pássaro apressado. Acendi a luz do abajur e pisquei algumas vezes. Havia uma bandeja ao meu lado, com chá e dois sanduíches de queijo. Olhei para ela com ternura, imaginando quem a havia deixado lá. Pai, mãe? Por alguma razão meus olhos se encheram de lágrimas e desejei ter cinco anos de novo, para poder me afundar no colo de minha mãe e chorar. Uma angústia profunda e uma dor sem-fim se apoderaram do meu peito. Dor de perda, de morte, de solidão. O estranho é que eu parecia conhecer aquilo - não era novidade pra mim. A novidade era a revelação da dor, porque ela sempre estivera presente, escondida, calada, sufocada. A sensação de que alguma coisa estava faltando, de que eu jamais seria completa. E por alguma estranha razão, ela havi escolhido aquele momento para se revelar por inteiro, e eu caí no choro sem dó nem piedade. Depois de algum tempo, não sei dizer quanto, adormeci novamente, vagando num mundo de sonhos confusos, escuros sem cor, como as sombras de um passado desbotado. O misterioso homem de trança estava presente e corria desesperado, tentando salvar alguém. Sentindo seu desespero, eu pedia que se acalmasse, mas ele não me ouvia. De repente, sombras tempestuosas desabaram sobre as imagens e eu afundei na névoa densa, vazia e estéril de um sono sem sonhos.
***
Não devíamos estar ali, mas era impossível impedir que minha alma seguisse meus instintos. Eu simplesmente tinha que rodar por Red Leaves. Sentia que era a coisa certa a fazer, mas persuadir os outros não foi fácil. Já havia sido uma batalha convencê-los a incluir um show extra na turnê, principalmente por se tratar de uma cidade tão pequena, quase na divina do Canadá.
Quando pedi à Tray que virasse em determinada rua, pude senti-la. Ela estava nas proximidades, em algum lugar. Cada célula do meu corpo gritava isso. Vimos a fila na calçada e aquilo nos emocionou. Tantas pessoas enfrentando chuva e frio intensos só para conseguir um ingresso e nos verem tocar. As reclamações sobre fazer uma apresentação no fim do mundo, como dizia Pops, foram esquecidas. Eles eram fãs e nós seus ídolos. Devíamos isso a cada uma daquelas almas jovens.
Tray dirigia vagarosamente e eu comecei a sentir um formigamento insuportável percorrer meu corpo. Comecei a tremer incontrolavelmente, a ponto de Pops me olhar bastante preocupada.
- Pare aqui - disse a Tray. - Nós vamos entrar nesta loja.
- Você ficou louco? Vamos criar um tumulto aqui!
Pops estava certa é claro, o tumulto seria inevitável, mas o menos dos males. Tray olhou-me pelo retrovisor e ao ver meu estado, ele soube.
Bill
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